Reboleira.

Estar Reboleira é mais que agora, é mais que verdade... Estar Reboleira é morar em qualquer paisagem, ou em toda cidade...  Acho que são os sotaques...! Todos os sotaques batem a minha porta na casa da Reboleira. Toda. Vejo quitandas, chineses, eslavos, botecos, e até um pingo doce. Vejo muita coisa da esquina, muito beijo na boca... vejo da janela o vento que caminha lá embaixo. O tempo que desvia... Nono andar! Vejo a compaixão de quem pisa na poça... Vejo o vai e vem dos dias... Poesia. Estar Reboleira é estar casada, feliz... é estar na minha, é estar co-ti-dianamente indo e vindo... ao talho... indo e vindo do centro... de comboio ou em pé de vento. Brisada. Desperta. Estar Reboleira, entre crianças romenas, sírias, cabo-verdianas, bangladeshianas, angolanas, chinesas, portuguesas, brasileiras. ... é estar todo dia. Elas brincam na calçada como em qualquer outra cidade da vida, como em qualquer outra paisagem da vida. E eu observo. Quase tudo. Brinco às vezes, canto... Estar Reboleira é lembrar, toda hora, que esta terra não é a minha, que este chão tem outra gira, outra gama. Por isso e por tudo, às vezes não querer esse gosto imigrante na boca... essa nódoa... co-ti-dianamente. A vizinha, outro dia, nativa local, disse que já não gosta mais do nono andar... porque àquela, a de cor, sabe?... faz muito barulho. Kizomba. Eu sou de cor, Dona Vizinha, sou da cor da África, sabia? Ela nem ligou... Desviou. O olhar, os passos. Já nem fala mais comigo... Pequena, sabe?! Estar Reboleira... é estar longe de mim... co-ti-dianamente...! E faz frio na Reboleira, sabe? Cada vez mais frio... Mas, eu... Eu moro na Ilha Brasil de Santiago. Na minha casa não faz frio. Mas, na Reboleira, faz.

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