Begónias.

Eu queria tanto poder falar só de flores...
e brisa, e coisa santa... coisa leve...
Sobre como ontem, quando sai com meu marido pra caminhar,
parei pra mijar, e no banheiro do café, a janela fechada era a fachada pra mil caules... pra mil luzes.
Estava coberta, ela, a janela... de vasos velhos, cheios de begónias vermelhas
(ou qualquer outra flor que eu não me lembro o nome, mas que poderia ser uma begónia).

Antes de entrar, pedir e mijar - aqueles três segundos antes...
Fiquei com medo que a doninha dissesse que eu não ia poder usar o banheiro, naquele dia.
Fiquei com medo, mas falei. Tem sempre o sotaque que se nota, a pele que se nota...

Mas ela até riu, quando eu comentei sobre as flores vermelhas lindas na janela do banheiro.
Riu pouco e fechado. Mas parece que esboçou um movimento qualquer.

É que hoje de manhã foi diferente...
Fui comprar meu cigarro, na venda ao lado...
E a mulher, com cara de tacho (e grossa, aquela bosta)
...

- Quer levar, paga! Me gritou a safada.
- Igual você eu já vi, leva e não paga. Eu já vi...
...

Eu queria poder falar só sobre o tempo lindo,
que passa em volta do meu filho, lindo...
Crescendo em volta da mim, igual abacateiro.

Eu até queria...
Mas não posso. Não consigo.

Minha poesia é meu grito!
Falo de amor, falo de aflito.

Porque o amanhã, ele já vem lá...
ele já está no meu encalço.
E ele gosta de imposto, propriedade, multa e serviço.
Ele é muito cruel comigo... contigo.
O amanhã...

Não gosta de flor, nem dá um sorriso.
Parece muito aquela senhorinha que eu nunca encontrei senão no elevador do meu edifício.
E que sempre que pode me diz que não gosta de gente assim, assim escura, assim do sul.

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