Mais nada.

Uma vez, eram três...
Três irmãs...
Três irmãs muito unidas.
Yemanjá, Oxúm e Oyá.
A mais curiosa. A mais inteligente.
E a mais bonita.

E elas precisavam de ir lá pescar...
Todas juntas, lá na beira...
Entre o mar e o rio. Bem unidas.
Lá no Volta... lá em Acra...
Rio-mar de histórias... e berço daquelas três vidas.

Mas, Oxúm, a mais velha, a mais sabida...
cheia de ideias... cheia de ideias bonitas...
Oxúm teve uma visagem, um lampejo.
Oxúm teve uma ideia fantástica. Uma ideia ma-g-ní-fi-ca.
Que iria trazer (mais) comida, (mais, mais mais...)
mais-peixes... mais-algas...
Mais o suficiente para alimentar toda a vila.
Então Oxúm chamou as duas outras...
Outras duas... muito meigas... bailarinas...
Para fazerem juntas... unidas.
A sua ideia. A sua ideia divina.

Então... Oyá carregou as cestas.
Yemanjá fez as trilhas. Limpou tudo.
E Oxúm organizou. Organizou muito.
Organizou tudo. Para as mãos das irmãs...
Que naquele dia encheriam de peixe e de alga, a vila.

Felizes, pescaram. Felizes cantaram. Fizeram.
Felizes. Revezaram. Fizeram. Felizes. Encheram as cestas.
Todas juntas. Todas elas. Bem unidas.
Unidas na ideia de Oxúm, que era a mais inteligente.
A mais sabida.

Quando, a noite,
na hora de comer e de agradecer...
E de comemorar... a bendita comida...
Toda a vila... toda ela... sorria.
De felicidade.

Oxúm foi chamada até a grande praça.

Diante das chefes e anciãs e sábias, da vila.
Em homenagem à grande ideia, daquele grande dia.
E em honra à quantidade de peixes,
que na cesta trazida por elas, - pelas três, as três juntas - havia...
A liderança da vila deu a Oxúm uma vela divina.
Uma vela que, quando acesa, levaria a Oxúm ao grande templo...
À grande festa... ao divino.

E assim, a mais velha foi presenteada,
com uma passagem para a terra sagrada,
na praça da vila, diante de toda aquela mulherada.
Diante das líderes divinas.

Mas, Oxúm, muito vaidosa,
se achando a mais poderosa, a mais querida...
Autora da obra, mandatária do grande dia...
Dia de peixes e mais peixes e mais peixes,
e algas...
Para toda a vila.
Oxúm achou-se no direito de... não contar, nada.
Nem comentar, nada. Nem compartilhar,
nem dividir... nada de nada... nada de vela,
nada de homenagem, nada de festa.

Achou-se na euforia, por ter sido a dona da ideia,
de não falar nada de nada,
com as suas outras duas irmãs...
Que felizes, fizeram. Juntas. Felizes. Revezaram.
Juntas. Fizeram. Felizes. Encheram as cestas.
Com os peixes e as algas para a vila. Juntas.

Passou um dia,
passou três dias,
três horas, três tempos...
Passou a vida. E num exato momento,
inconstante, indiscreto...
Oyá e Yemanjá souberam da vela. Da divina vela, da magia dela...
Do terreiro, da homenagem, das estrelas...
E de tudo que Oxúm vivia, mas com elas não compartilhava.
Não contava nem compartilhava mais nada...
Com as suas irmãs tão meigas, tão bonitas...
Tão necessárias... tão unidas.

Quando souberam do inimaginável...
Do in-compartilhável...
Oyá gritou como um raio. E correu como um raio.
Fez tornados. Fez pilhérias...
Yemanjá derramou muitas lágrimas...
Inundou toda a vila.
De pesar. De desprezo. Ficou triste. Triste à beça.

Mas, tudo não passou de espanto...
Tudo passou como um rio (bem) forte...
Tudo ventou de repente... suavemente...
Pro norte.

Quanto a Oxúm... tão sabida... tão inteligente...
Tão tão tão... Oxúm,
nunca mais pôde pescar tantos peixes...
Oxúm nunca mais pôde muito...
Porque sozinha, não fazia nada.
Não sabia quase nada sozinha...

Era apenas ela e a vela. A vela mágica,
a vela divina. Assim, sozinha,
Oxúm não pôde mais nada... mais nadica de nada...
Até redescobrir-se na vida...
Até reencontrar-se no eixo... das coisas.
Da vida. Oxúm ficou sozinha,
até aprender a dividir:
notícias, vitórias, desejos, caminhos e velas.

Afinal, eram sempre as três, sempre juntas,
tão unidas... eram elas... tão irmãs...
Eram elas... Tão bonitas que, na beira do Volta,
olhando pra vida, souberam para sempre que...
Só podiam pescar juntas, só podiam fazer juntas...
Viver juntas... As três. Juntas. Tão meigas... tão bailarinas...
Sempre unidas. E mais nada.

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