Cidade-cigarra.

Quando eu vivi Brasília, tudo que eu fazia naquela cidade eram poesias de esquina e sem pressa pra nada. Poesias para a cidade que eu amo. Cidade-Brasília. Cidade-cimento-cerrado. Estar lá... era como me perder sem sair de casa. Era como estar sozinha. E se eu fazia um rabisco no peito da rua, longe de tudo, Brasília, longe da cidade... algo enchia o meu mundo de histórias sem graça... e eu sentia... vento... saudade-cidade.
Desde lá, desde de fora daquele excesso todo... ando sempre de banda, meio ausente... com o olhar em riste... meio triste... e cheia de saudade atenta... saudade à toa. Sem falar na grande sinfonia que a cidade em mim se tinha, com as artes, as enxurradas... tudo num âmbito bisonho... arquitetônico. De modo abstrato.
Foram muitos os abalos sísmicos que me tocaram, desde que te deixei, cidade. Cidade-Brasília. Cidade cerrado. Cidade-amada! Sem falar na grande falta que eu sinto de mim... quando eu era e estava... na cidade-cigarra. Tão segura, tão presente. Éramos eu e ela... Feito sintonia de beija-flor, erguida entre as mangueiras e pinhas e pitangas. E jacas. Romãs...! Tudo, num âmbito remoto... num estado de sítio-sereno. Airado... quase estrada, quase ausente. Indecente, sabe? Quase calmo. Cidade de esquinas e planícies e planaltos. Quando faltava apenas tu, Rio da minha alma, apenas tu, e mais nada, naquela cidade-cigarra.

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