Conversa atualizada.

Naquele dia, ela se virou para nós e disse:

- Às vezes, eu acho que eu posso ser qualquer pessoa, qualquer coisa. Mas, não posso... não posso mesmo. Sempre fui negada a namoricos de beira de calçada, como com o resto da garotada com quem eu andava. Tais representações aconteciam em mim, através da recolha de dados, mas em nada adiantava. Sobre esse poder, essa dor... essa falta de representatividade, de reconhecimento dos entendimentos sobre o corpo que carrego - por dentro -, e que estão rabiscados pela própria cidade. Faço votos que tudo se resolva com amor e calma... A história que eu trago em minha carne... vem de longe... vem das Yabás. Asé Ilê Obá. Foi por dentro de mim que eu vim. Foi de dentro do mar... Carregada. E mais nada...

Ela falava como quem se esconde... procurando uns acenos, umas reciprocidades... umas bondades no olhar de quem se gosta... Isso foi durante um conversa atualizada, em dia de festa, em dia de feira. Ela dizia tudo, com o olho em água. E brilhava muito... como brilhava. Era um dia estranho, aquele dia em que conversávamos todos, ouvíamos todos... num aquecimento interno. Naquele dia o meu país não andava bem, não, sabe... Não estava nada bem... havia milicos por todos os lados... e cabeças cheias de mitos e golpes e violências veladas.

Mas, eu - que sobre tudo me importava - fiquei ali, ouvindo aquela menina tão cansada... tão cheia de vontade de família e filhos e confiança e reciprocidade e mais nada. Coisa de quem quer paz e liberdade. Falar e ser ouvida. Kilomba. Falar, ser ouvida e ser lembrada. Naquele dia... fiquei pensando que eu precisava mais... de mais. Pensar em mim, banhar a alma, rever poemas. Repetir, refazer, seguir em frente.Quando não da certo, a gente segue em frente e vai embora.

Para ajudar a pensar o meu caminho, de fronteiras perdidas e amizades espalhadas...fiz desta conversa, um registro poético.


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