Episódio 27.

Diário de uma imigrante: mulher, negra, brasileira.

Rotina. Dia cheio, dia vazio... A matrícula. Quase tremo. Apatia. Uns trocados... A porta do prédio bate atrás de mim. O corpo. No eco de muitas outras portas batidas. De dia de Sol estalado. No meu quengo. Atrasado. A tese. Não posso esquecer... A tese. Repito a lista: pão quentinho, uma mortadela e leite pro café pra tese pra vida... Não posso esquecer... Onde deixei aquele livro?... Olha, lá vem a vizinha... tão querida, educadinha!

- Bom dia, menina! A mãe já arrumou casa? - Ela pergunta. A vizinha.
- Bom dia, Dona Florinda, arrumou nada... E lá tá tão caro... - Eu respondo.
- Ah, pois! - E me escuta.
- Até agora, por aqui, coisa nenhuma. Lá tem porque é caro, né?
- Não tem, né? Por aqui...
- Por aqui parece que não há... não há nada, né?

[uns suspiros...]

Ela avança.
- Sabe, há um no terceiro andar daquele prédio ali. - E aponta. - Havia uns seguranças do governo. Foram demitidos e voltaram pro Algarve. Soube ontem.
- Olha, que bom... tá vago? - Indago.
- Vazio e mobilado! Tem tudo... Em reforma, logo acaba.

- E temos como falar com a dona? - Eu insisto.

[uns suspiros...]

- A mulher vem aqui todos os dias, até já comentei com ela...
- Olha, que bom, que maravilha!!
- Mas, ela já me disse, sabe... Não quer pretos!!!! Nadinha. Nem abrasileirados...

[uns suspiros...]
- ?????? - Eu indago.

[Me calo!] [A cara grita!]

Ela avança.
- Abrasileirados, meu bem... não como tu! Não repara... É diferente... de ser de lá, sabe? É o jeito... Expliquei que sua mãe é até meio branca...

Eu avanço.
- Obrigada, Dona Florinda! Um assim, somos nós que não queremos... não quer pretos??? Esse, que fique vago!!  [Saio andando...]

Já da esquina, ela exclama alto... e todo mundo da rua olha.
- Amanhã, então, eu te digo qualquer coisa, tá? Se ela vier, lhe pergunto. [E me pisca, em confidência.]

Eu, que já sigo adiantada, pela calçada ensolarada... vou pensando na tese e na dor de estômago que me toma, de-re-pente.