(H)á chuva lá fora.


As vezes dá um medo tão grande da vida...
Dá um medo tão grande.

Mas, você?
Você não estanca.
Você não pavora...
Você só me deixa sem jeito - porque nunca não volta pra trás nessa lida.

Você é belo como o Rio do Vão. É escuro e caudulento.
Deixando de lado a cigarra e as formigas,
que caminham entre os assoalhos e pela cozinha.

Você me comove como o tempo,
me descontrola como o vento.
Como o pensamento que deu pra chover aqui dentro.

Mas, hoje...
Hoje chove é lá fora. Lá do lado de fora da minha janela.
Hoje chove e é de frio. Num pesar quase sem trégua,
quase sem rosto.
Como quando eu fico exposta,
ou ausente, ou sem força. Ou sem brio.

E mesmo com todo esse dilúvio cinzento,
há milhões de línguas falando...
Milhões de línguas em volta da minha cabeça,
querendo me contar como é o meu caminho,
como é o meu entorno.

Logo hoje... logo agora.
Na hora de um dia quase triste... quase esteio,
em que você me chamou de chata e me pediu um conselho.
Mas, foi-se embora,
ansioso e sem medo.

Foi-se embora como a água da chuva,
que chove como o vento. Que chove lá fora.
Mas nunca de medo...

Mesmo sendo ela, uma chuva que chove como quem chora. 
Uma chuva que chora, como quem chove aqui dentro...
E me derrama uns poemas, me conversa umas rimas...
Como May Ayim e outras Anas.

Hoje-ontem-sempre... me mandaram calar certas dívidas,
me mandaram esquecer as verdades do tempo...
Mas eu não me calo. Não calo e não vento.
E vou ficando forte como o Rio. Como a noite.
Materna. Mal-dita. Carregando dentro de mim outra vida.

Que igual a você,
em mim, não estanca... em mim, não tem medo.
Só cresce (e escuta). Enquanto chove lá fora...
Enquanto chove esse tempo.
fotografia realizada da instalação feita pela Grada Kilomba na Bienal de São Paulo de 2016.

Postagens mais visitadas