Marcas.

 
Eles nos apagam. Nós voltamos a estar. Eles nos apagam, nós voltamos a estar lá… na ausência imposta aos espaços que nunca estão [devidamente] instrumentalizados - pelo Estado. Com exceção do seu braço armado. Eles nos apagam, nos esmagam… mas nós vamos lá e nos marcamos, nos inserimos, nos deflagramos - de novo e de novo e again. Por toda a cidade. Pela cidade toda. Por toda ela. Desde muito e para sempre! É que, por onde nós passamos, nos marcamos e deixamos marcas. Marcas de uma existência em luta. Em marcha. Sendo essas, as marcas de um povo que não se cala. Que não se cala e não teme - quase nada. Exceto o próprio nada, a ausência, a falta! Somos, portanto e sem dúvida, mesmo quando em nós se apaga… Somos marcas sussurradas, desenhadas, rabiscadas… pelos cantos e muros e estradas. Somos marcar marcadas, inventadas, pela vigilância ao nosso corpo nas cidades e nas ca(u)sas. Mesmo que as descendências estejam partidas e as fronteiras (continuamente) sendo re-inventadas. Somos as marcas que, apesar do controle, apesar da violência e da intolerância e da retaguarda… somos as marcas que se recusam a sentença unilateral da mordaça. Exprimindo vontades… anseios… saudades. De um futuro distante. De uma vida distante. Exprimindo a necessidade de respirar, de habitar, de ocupar… em múltiplas instâncias e ressonâncias. Em múltiplas paisagens e linguagens e cores e palavras. Mesmo que os nossos corpos sejam tratados como territórios usurpados! Por isso e por mais. Por tudo e por nós. Pelo que se vê e pelo o que há - em volta de nós - que o nosso transitório cria um rastro de luz que não se esconde. Que não se apaga. Que erradia e exala. Sendo, portanto, esta, uma exposição (http://www.buala.org/pt/galeria/as-marcas-da-cidade-somos-nos) que versa [em conceito, poética e farpas], sobre a questão da invisibilização dos corpos negros [não brancos] no fluxo contínuo dessas vidas postas em trânsito, em guetos, em paredes e páginas - apagadas. Pela lógica racista da vida contemporânea, com as suas barreiras impostas desde o colonialismo e ressignificadas, reforçadas, restauradas… pelo atual-antigo sistema-mundo. Colonial-capitalista-patriarcal… que compartimenta espaços, corpos, descendências e náuseas. Que nos obriga às fronteiras… entre culturas, entre línguas, entre-vidas… e nos encerra… a imaginação, os desejos, os saberes e as mágoas. De tudo que de nós escapa. A gente vai sendo apagado, é verdade! Na cidade qualquer. Tão racista, tão sexista. Mas… se eles nos apagam, nós voltamos a estar. Quando nos apagam, nós voltamos a estar lá… de novo e de novo e again. Desde sempre e desde muito! Sobre o todo. Asé. E mais nada.